Um concurso de professores que eterniza a injustiça, divide e corrompe
Agora iremos ter professores do quadro que correm o risco de ir parar à mobilidade especial.
Fica o artigo de opinião de Santana Castilho, que espelha bem o que se tem passado na Educação e todas as injustiças que já anteriormente referi sobre este Concurso Externo Extraordinário e não só, tanto para professores contratados como para professores do quadro:
"Pouco a pouco, a Educação nacional vai-se transformando num instrumento da tendência totalitária do Governo, cujo objectivo é produzir cidadãos submissos, que cumpram o desiderato da “ausência de alternativa”. Para isso, a política que emana do Ministério da Educação e Ciência tem sido sistematicamente urdida de modo a conduzir a comunidade académica para um reduto de proletários, que apenas lutem pela sobrevivência.
Tratando os professores como menores mentais, que gostaria de confinar a um enorme campo de reeducação, Nuno Crato tem-se esforçado por remover a cidadania da Escola e por vestir a todos o colete-de-forças da burocracia burlesca e do centralismo castrante. Para o homem que odeia as ciências da Educação e lhes chama “ciências ocultas” (que de facto o são por referência à ignorância que sobre elas exibe), tudo o que é anterior ao seu iluminismo é lixo não científico, que trata com a angústia persecutória própria de um teocrata que venera a econometria.
Esta moldura enquadra perfeitamente o concurso externo extraordinário para recrutamento de pessoal docente de educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário. São 1954 vagas para quadros de zona pedagógica, que não satisfazem as exigências da Directiva 1999/70/CE (toda a jurisprudência do Tribunal de Justiça da União Europeia sobre a matéria aponta para uma só solução no quadro nacional: vinculação aos quadros de todos os professores que, desde 2001, sejam titulares de mais de três contratos anuais sucessivos), que estão muito longe de diminuir a precaridade do trabalho docente e que dividem, uma vez mais e de modo desonesto, os professores.
Desde os tempos de David Justino que os concursos de professores, que estavam então estabilizados e não provocavam protestos, geram injustiças e criam castas, por via de sucessivas mudanças de regras, donde a ponderação da iniquidade desapareceu. Muitas decisões foram deixadas ao livre arbítrio das escolas (contratação de escola), com as consequências vergonhosas que são do conhecimento generalizado, impunemente, ano após ano, com total desrespeito pela graduação e tempo de serviço dos candidatos e facilitação despudorada do favorecimento e da corrupção. No caso em apreço, não se conhece o critério que concentrou a maioria das vagas em dois quadros de zona e deixou muitos grupos de recrutamento com vagas reduzidas ou mesmo sem vagas. O desrespeito pelas artes (sem vagas de contratação) é perverso e diz claramente que, para Nuno Crato, o objectivo é afastar a Escola do conceito de desenvolvimento integral das pessoas, transformando-a num espaço de reflexos condicionados pelos sinais dos mercados, pelas necessidades das empresas e pelos estímulos do que é imediatamente utilitário.
Já tínhamos professores com mais de duas dezenas de contratos, com menor salário e mais horas de componente lectiva, embora com mais tempo de serviço e, até, habilitações, que professores do quadro. Agora iremos ter professores do quadro que correm o risco de ir parar à mobilidade especial por estarem impedidos de concorrer em igualdade de circunstâncias com colegas contratados.
Temos professores que entraram nos quadros o ano passado, em escolas longe da residência, que verão agora serem ocupadas vagas ao lado de casa por colegas com menor graduação, mas mais sorte na roleta russa.
Teremos professores com menor habilitação profissional, que entrarão nos quadros porque pertencem a grupos de recrutamento bafejados com o livre arbítrio de quem não se sente sequer obrigado a revelar os critérios que usou (se usou algum). E temos professores escravizados e humilhados durante anos, que argumentam contra colegas a quem acusam de nunca terem querido concorrer a todo o país, como se a opção de não abandonar filhos e mulheres ou maridos, gastando metade do ordenado em viagens e quarto alugado, fosse variável válida no jogo deprimente da sobrevivência. E temos governantes sem alma nem ética, que se empenharam meticulosamente e com insídia em descredibilizar os professores aos olhos da opinião pública, que agora se riem com os resultados da divisão que conseguiram, porque é essa divisão que lhes alimenta os abusos. E temos, sobretudo, políticos de todos os quadrantes, humana e politicamente imaturos, que nunca leram o artigo 47.º da Constituição da República Portuguesa, que assim dispõe: todos os cidadãos têm direito de acesso à função pública, em condições de igualdade e liberdade, em regra por via de concurso.
Não tivera eu razão e a fiscalização preventiva ou sucessiva da corrupção constitucional das regras de recrutamento de professores há muito que teria sido suscitada. Não tivera eu razão e não assistiria ao lento desboroar da reserva crítica que os professores representam contra a alienação social e cultural, que este Governo promoveu em três anos de desespero.
Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)"
Sugestão: http://santanacastilho.blogspot.pt/p/o-ensino-passado-limpo.html
ResponderEliminarBom artigo. Sabe do que está a falar!
ResponderEliminarSem dúvida que o trabalho deste governo foi o desprofissionalizar os professores, torná-los em autómatos que reproduzem "a vontade dos chefes" que, tendo sido colocados nos ditos lugares por métodos pseudo-democráticos, se limitam a obedecer às ordens superiores independentemente da legitimidade das mesmas. Um reparo ao texto: sempre concorri a nível nacional. Como tal, fui colocado efectivo no primeira oportunidade que o concurso me deu ao fim de mais de 18 anos de serviço (e, vivendo em Braga, o meu destino foi Amadora!). Nos 3 anos seguintes, ainda consegui aproximar porque havia concursos anuais (como em Espanha e França, por exemplo). Porém, a ministra do (des)governo de José Sócrates, inventando a divisão da carreira (criando a categoria de "Professor Titular") destruiu todas as possibilidades de aproximar-me. Maldita promoção! É assim que se compensam os que ela considerava "melhores"? Assim, até hoje, fiquei impedido de concorrer e, neste momento, estou "condenado" a exercer numa escola onde exerci quando apenas tinha 4 anos de tempo de serviço. Maldita ministra! Maldita incompetência". O problema é que, a divisão da carreira (contra a qual sempre lutei!) me condenou a ser "professor-titular". e a legítima expectativa (minha e de muitos outros docentes) foi "a(ssa)ssinada" pelo anterior (des)governo com a aprovação de um normativo que levou à divisão da carreira mas foi perpetuada pela (in)competência deste (des)governo (sobtretudo do Ministério da Educação e dos (ir)responsáveis pela pasta dos recursos humanos da Educação.
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